Travessias
Quando um livro volta para conversar com a autora
Escrito durante a preparação do lançamento de A Mãe, ao revisitar as páginas de A Peregrina.
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Nos últimos dias, enquanto organizava o lançamento do meu segundo livro, A Mãe, me vi tomada pela ansiedade.
Prazos, gráfica, transportadora, decisões... A velha sensação de querer garantir que tudo desse certo antes de seguir.
Foi então que voltei às páginas de A Peregrina.
De repente, percebi que havia esquecido algo que eu mesma tinha escrito.
Encontrei uma frase:
“Não existe caminho errado e sim aprendizados a serem extraídos no caminho.”
Mais adiante, outra:
“A dúvida é algo natural na caminhada e enquanto estivermos caminhando elas sempre vão existir... O único erro na caminhada é a paralisação.”
E, então, me dei conta de que a peregrina de 2022 estava conversando com a mulher de hoje.
Naquela época, eu caminhava pelos Pirineus sem saber exatamente o que encontraria no dia seguinte.
Hoje, caminho por outro tipo de travessia. Já não carrego uma mochila nas costas. Carrego livros, projetos, uma filha pequena e a responsabilidade de continuar oferecendo ao mundo aquilo em que acredito.
As perguntas, porém, continuam surpreendentemente parecidas.
Será que escolhi o melhor caminho?
Será que deveria esperar mais?
Será que estou pronta?
Talvez eu ainda procure um caminho em que tudo se encaixe sem perdas. Mas, aos poucos, vou aprendendo que toda escolha pede uma renúncia. Inclusive da crença de que exista um caminho perfeito.
Talvez a resposta permaneça a mesma.
Não caminhar porque temos todas as garantias.
Caminhar porque, em algum momento, percebemos que confiar também é um jeito de seguir.
Percebo, cada vez mais, que um livro nunca termina quando é publicado. Às vezes, ele espera alguns anos para voltar e conversar com quem o escreveu.
— Camila Ungarato
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