Travessias
O que não muda
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Estava ali, esperando para cortar o cabelo. Assistindo a um vídeo na TV, pensando nos livros prestes a chegar e no lançamento do dia 22.
E me peguei pensando em como a gente costuma entender transformação como algo performático. Um corte novo. Uma cor diferente. Uma roupa que não usaria antes.
Mas, afinal, o que é transformação?
Existe a mental — quando uma crença que sustentava tudo simplesmente para de fazer sentido. Existe a social — quando o lugar que ocupamos num grupo, numa família, muda, e ninguém pede licença. Existe a biológica — o corpo que se reorganiza sozinho, sem pedir opinião de ninguém.
E o corpo guarda isso tudo. Não como metáfora — como fato. Anos acompanhando corpos me ensinaram que a transformação raramente avisa. Ela já aconteceu por dentro muito antes de aparecer por fora.
Isso me lembrou de Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que Correm com os Lobos: os ciclos de morte e renascimento que atravessamos não pedem permissão, só pedem que a gente esteja disposta a atravessar.
Na maternidade isso fica ainda mais evidente. O corpo muda visivelmente — mas quando a mudança visível chega, a mulher que a habita já não é a mesma há semanas. Meses, às vezes. A gente só vê depois.
Nem toda transformação é escolhida. Algumas a gente busca — um curso, uma mudança de cidade, um corte de cabelo decidido num domingo à tarde. Outras chegam sem convite: uma perda, um diagnóstico, um luto. E talvez a diferença mais honesta não esteja entre o que muda e o que fica, mas entre o que se escolhe atravessar e o que simplesmente atravessa a gente.
Há também um descompasso de tempo. A transformação interna é lenta, silenciosa, quase imperceptível enquanto acontece. A externa é rápida — um corte, uma tesoura, dez minutos. Por isso confundimos tanto as duas: porque uma tem pressa de aparecer, e a outra não tem pressa nenhuma.
E existe ainda a questão de quem valida essa mudança. Muitas vezes ela só parece real quando alguém de fora percebe. "Nossa, você mudou." Como se a transformação precisasse de testemunha para existir. Mas há mudanças que nunca ganham forma visível — que ninguém nota, que não cabem numa foto de antes e depois — e nem por isso são menores.
No Vedanta, que tenho estudado, há uma pergunta que atravessa tudo isso: o que muda e o que observa a mudança? O corpo muda. Os papéis mudam. A aparência muda. Mas há algo que assiste a tudo isso sem se transformar — não porque seja rígido, mas porque nunca foi feito da mesma matéria que muda. Talvez a verdadeira travessia não seja virar outra pessoa, mas reconhecer o que, em nós, nunca deixou de ser.
E isso raramente se descobre sozinha. Não porque falte força, mas porque é mais fácil enxergar o que não muda em nós quando alguém caminha ao lado — não para apontar o caminho, mas para lembrar que existe um chão debaixo da mudança. Acompanhar mulheres nesse processo me ensinou isso: que autoconhecimento raramente é solitário. É relação. É alguém que segura a pergunta com a gente até que a resposta apareça sozinha.
Fiquei ali, esperando a tesoura, pensando que talvez nem fosse sobre o cabelo. Será que mudamos a aparência para nos transformar? Ou será que mudamos a aparência porque, em algum lugar, já nos transformamos antes?
— Camila Ungarato