Camila Ungarato
← Diário poético

Presença

O Preço do Expresso e os Atos de Fé

·4 min de leitura

Em um almoço de sábado, entre garfadas de rúcula, o papo fluiu leve da salada ao expresso. A conclusão da mesa parecia unânime, daquelas verdades absolutas que a gente carimba com força: não existe almoço grátis — e muito menos café.

Meu marido comentou que passou anos sem tocar em rúcula, traumatizado por uma pizza paulistana exageradamente carregada com as folhas verdes. A lembrança me transportou imediatamente para os tempos de faculdade. Lembrei-me de uma viagem que fizemos a São Paulo, onde a nossa rotina estudantil incluía devorar muitas fatias de pizza barata. Em uma dessas noites, logo após o jantar, o garçom se aproximou com um sorriso cortês e ofereceu: "Um expresso para fechar?". Inocentes e duplamente famintos, todos aceitaram, certos de que era um agrado da casa. Claro que o valor veio impresso, sem qualquer poesia, na conta.

Na mesa do almoço de sábado, eu ria da minha ingenuidade daquela época. É curioso como a mente faz caminhos sinuosos para costurar memórias distantes — rúcula, pizza, São Paulo, faculdade — e nos fazer chegar a certezas blindadas. Pensei até em pegar o celular para mandar uma mensagem no grupo de WhatsApp daquela velha turma, só para rirmos juntos do causo.

Deixei para depois. Mas a vida, que adora uma ironia, não esperou.

Na manhã seguinte, saí para passear com minha filha. No meio da calçada, avistamos uma barraquinha charmosa que parecia servir café. De longe, observando o movimento, brinquei com ela: "Vai achando que tem café grátis!".

Bastou nos aproximarmos para sermos abordadas por uma moça simpática. Com um sorriso caloroso, ela estendeu a mão e desarmou o meu cinismo: — Vamos tomar um café? Aceita este brinde?

Ela nos entregou um pacote bonito e ainda ofereceu diferentes opções de grãos para escolhermos. Pois é. No fim das contas, o café grátis existia.

Coincidência? A própria palavra fala em convergência de acontecimentos ou circunstâncias. Mas de onde vêm esses alinhamentos do destino? Prefiro deixar a pergunta no ar e não fechar nenhuma conclusão agora.

Fico apenas com a reflexão que o episódio me trouxe: quanto "café" a gente aceita na vida achando que sai de graça? Não dá para abraçar qualquer proposta só porque ela se veste de cortesia. No fundo, quase tudo tem algum custo — seja em tempo, energia ou expectativa.

Ainda assim, continuar esperando por um agrado desses em uma manhã comum de domingo — ou, quem sabe, logo após uma boa pizza — é um pequeno, mas absolutamente necessário, ato de fé na vida.

Por sinal, o café estava delicioso.

— Camila Ungarato

Compartilhe esta travessia

WhatsApp