Camila Ungarato
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Presença

As fontes que não servem para nada

·5 min de leitura

Corredor de uma casa antiga escondida entre prédios, com arcos, janelas vermelhas, jardim tomado por plantas e uma fonte ao fundo

Hoje passei por uma casa e parei para olhar.

Ela estava escondida entre prédios e muros altos. Do lado de dentro das grades, um corredor levava a um pequeno jardim tomado por plantas. Havia arcos, janelas vermelhas, vitrais. Ao fundo, uma fonte.

Fiquei ali por alguns minutos.

Minha primeira pergunta foi quase óbvia:

Como um lugar tão bonito fica escondido?

Depois vieram outras.

Como pode estar protegido por grades e, ainda assim, ser invadido e abandonado?

Por que não fazemos mais construções assim? Com arcos, fontes, vitrais, janelas vermelhas?

Descobri que a casa foi construída em 1970. Nem tanto tempo. E, ainda assim, ela já parece contar a história de outro tempo, de outro modo de morar e talvez até de outro modo de viver.

Continuei olhando.

A vegetação cresceu por toda parte. Há sinais de deterioração, lixo, umidade, abandono. Mas os arcos continuam ali. O vermelho ainda aparece. A fonte permanece ao fundo.

A beleza não desapareceu porque deixou de ser cuidada.

Ela apenas ficou escondida.

E então, depois de algum tempo fazendo perguntas sobre aquela casa, percebi que já não estava pensando apenas nela.

O que esse lugar poderia me ensinar?

Pensei primeiro que nem tudo aquilo que está escondido deixou de existir.

Há coisas que permanecem mesmo quando não estão sendo vistas. Há beleza que atravessa períodos de abandono. Há partes de nós que podem ficar encobertas durante anos e ainda assim continuar ali, esperando que alguém — às vezes nós mesmas — volte a olhar.

Depois pensei na fonte.

Talvez ninguém precise de uma fonte dentro de casa.

Assim como ninguém precisa de uma janela vermelha. Um arco poderia ser uma parede reta. Um vitral poderia ser um vidro comum.

Em algum momento, porém, alguém decidiu gastar espaço, dinheiro e trabalho com coisas que não eram estritamente necessárias.

É justamente isso que me comove.

Construímos cada vez mais pensando no que cabe, no que funciona, no que é prático, no que dá menos trabalho, no que serve para alguma coisa.

E fazemos isso também com a vida.

Queremos saber para que serve uma viagem. Para que serve escrever. Para que serve passar horas fazendo algo que não produz dinheiro, resultado ou reconhecimento. Para que serve caminhar longas distâncias. Para que serve contemplar. Para que serve criar alguma coisa simplesmente porque ela nos parece bonita.

Será que tudo precisa servir?

Talvez algumas coisas sejam a fonte.

Não sustentam a estrutura.

Mas dão alma a ela.

Olhei novamente para as grades e pensei em outra coisa: proteger não é o mesmo que preservar.

Podemos cercar alguma coisa inteira e ainda assim deixá-la se deteriorar por falta de presença.

Também fazemos isso conosco.

Criamos defesas. Estabelecemos limites. Tentamos controlar aquilo que entra e aquilo que sai. Mas preservar uma vida talvez exija algo diferente de protegê-la.

Exija habitá-la.

Visitá-la.

Cuidar do que começa a ruir.

Abrir algumas janelas.

Limpar o jardim.

Lembrar da fonte.

Por fim, pensei na data da construção: 1970.

Pouco mais de cinquenta anos foram suficientes para transformar uma casa em vestígio de um modo de viver.

E isso me pareceu ao mesmo tempo triste e libertador.

Porque aquilo que hoje consideramos tão definitivo — nossas casas, rotinas, trabalhos, prioridades, maneiras de produzir, consumir, criar filhos e organizar os dias — também passará.

É possível que reste muito pouco.

Talvez reste só uma fotografia.

Uma história.

Uma janela vermelha aparecendo entre paredes descascadas.

Foi então que a pergunta mudou mais uma vez.

Já não era:

Por que não constroem mais casas assim?

Era:

Se a vida que estou construindo agora também contará, um dia, a história de um modo de viver, o que eu gostaria que permanecesse dela?

Ainda não sei a resposta inteira.

Mas desconfio de uma coisa:

não quero retirar da minha vida, em nome da funcionalidade, todas as fontes, os vitrais e as janelas vermelhas.

— Camila Ungarato

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