Camila Ungarato
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Presença

O Domesticador Invisível

·5 min de leitura

No início de Indomável, a escritora compartilha uma imagem poderosa: a história de Tabitha, uma gueparda criada em cativeiro ao lado de uma cadela Labrador.

A função da Labrador era simples: ensinar a gueparda a se comportar. Ensinar que a vida consistia em correr em círculos atrás de um urso de pelúcia imundo preso à traseira de um jipe, em troca de um pedaço de bife oferecido por mãos humanas.

E a gueparda, dona de uma velocidade capaz de cortar o vento das savanas, abana o rabo. Deita. Espera. Aprende a agir como um cachorrinho.

Olhando para essa cena nas madrugadas silenciosas, entre o peso do corpo de uma bebê de dez meses e o manuscrito de um livro prestes a nascer dali a quarenta dias, uma pergunta me atravessou:

Será que temos mais medo de agir como Labrador ou de nos encontrarmos com o nosso animal selvagem?

Há uma conveniência confortável em ser o Labrador.

O Labrador é previsível. É aceito. Cumpre expectativas, ganha tapinhas na cabeça e conhece exatamente o tamanho da cerca que o delimita.

Passamos anos aperfeiçoando esse comportamento: sendo profissionais infalíveis, mães pacientemente estoicas, mulheres que esticam o próprio tempo até ele virar fiapo para caber na agenda do mundo.

Mas a frustração que sentimos, muitas vezes, não nasce da falta de produtividade ou de organização.

Ela nasce do chamado da savana.

O Vedanta chama a capacidade de enxergar essa diferença de Viveka: o discernimento que separa o transitório daquilo que é Real.

Os papéis que desempenhamos, as expectativas externas, as cobranças do mercado e até a identidade que um dia construímos pertencem ao campo do transitório. São roupas que mudam de tamanho, cercas que se deslocam, pelúcias que perseguimos para provar o nosso valor.

Talvez nós nunca tenhamos sido o Labrador. Talvez apenas tenhamos aprendido a imitá-lo.

Quando leio sobre Viveka, penso justamente nisso: existe algo em nós que permanece intocado sob todas as camadas de domesticação. Uma presença que sabe quem é, mesmo quando vive entre grades. Um espaço interno que nenhum algoritmo, expectativa ou aprovação consegue colonizar.

Reorganizar o trabalho. Parir um livro. Sustentar uma maternidade. Nada disso me parece, hoje, um problema de eficiência.

Parece um exercício diário de Viveka.

É olhar para o espelho e discernir:

O que, em mim, continua abanando o rabo para agradar o zoológico?

E o que, em mim, ainda guarda a força viva de uma gueparda pronta para correr o próprio chão?

Parar de agir como Labrador assusta, porque a savana é imensa e não vem acompanhada de um manual de instruções.

Mas a jaula, por mais confortável que seja, nunca será o nosso lar.

— Camila Ungarato