Travessias
A lagarta e a borboleta
·3 min de leitura
Aos oito anos de idade, eu estudava em uma escola pluridocente, daquelas em que mais de uma turma dividia a mesma sala. Lembro-me da professora pedir que lêssemos um pequeno livro e, depois, apresentássemos a história em forma de teatro.
Para mim, foi destinado um livrinho sobre a lagarta e a borboleta.
Tenho a recordação de que, na história, a lagarta temia tanto a transformação que se aproximava que acabou fazendo xixi na cama. Ela precisou reunir muita coragem para entrar no casulo, despedir-se da vida que conhecia e aprender a voar.
Pelo que me lembro, apesar das dificuldades, o final era feliz.
Anos depois, ao recordar essa história, percebi que a vida da lagarta não terminou quando ela aprendeu a voar.
E a borboleta não se tornou livre apenas por ter saído do casulo.
Talvez a grande transformação tenha acontecido quando ambas — a lagarta e a borboleta — reconheceram que são o mesmo ser.
O mesmo ser que tem medo e que sabe voar.
O mesmo ser que recomeça a vida com asas sem deixar de ter rastejado pelas árvores.
Uma depende da outra.
Assim como o passado e o presente.
É um exercício necessário olhar para a nossa história e reconhecer tudo o que aprendemos vivendo como "lagartas".
Mas também é um exercício vital aprender a nos desapegar das identidades que já não nos servem, sem negar o caminho que nos trouxe até aqui.
Talvez amadurecer seja isso:
descobrir que a lagarta e a borboleta não são opostas.
São apenas formas diferentes de habitar a mesma vida.