Camila Ungarato
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Corpo e Presença

O que nenhum medicamento alcança

·5 min de leitura

Durante anos, minha cabeça doía.

Não de vez em quando. Com frequência, com intensidade, com aquela sensação de que o mundo precisava parar enquanto eu ficava no escuro esperando passar.

Fiz exames de vista. Usei óculos. Investigaram hipoglicemia. Fui ao neurologista. Melhorei. Fiquei alguns anos sem crises fortes.

Mas continuei tomando analgésico quase todo dia.


A dor havia mudado de intensidade. Não de endereço.

Anos depois, as crises voltaram. Retornei ao tratamento. Melhorei de novo.

E foi nessa segunda volta que algo ficou claro.

Dentro do consultório, já medicada, já melhorando pelos critérios dele, eu disse uma coisa que o médico não esperava ouvir:

“Eu sei que estou melhor. E também sei que isso está mascarado pela medicação. Para eu realmente ficar bem, preciso de um posicionamento que ainda não sei nomear. Mas sei que não está aqui dentro.”

Ele ficou um pouco sem resposta. Eu também.

Não sabia o quê. Mas sabia que se eu não mudasse algo mais fundo, aquele tratamento me manteria bem por um tempo — e depois voltaria tudo.


O que a enxaqueca me mostrava

Demorei para perceber que minhas crises tinham um padrão.

Sempre que eu atravessava períodos de tristeza, tensão ou situações emocionalmente difíceis, a enxaqueca parecia encontrar mais espaço para aparecer.

E eu fui desenvolvendo, sem perceber, uma estratégia: quarto escuro, silêncio, recolhimento.

Havia algo de cuidado genuíno nisso.

E havia também um lugar de espera — como se a dor me desse permissão para parar, descansar, existir sem precisar responder ao mundo.

Só muito depois entendi que precisava mobilizar algo diferente. Não apenas mudar alimentação, medicação ou atividade física. Precisava mudar uma maneira de me enxergar e de me posicionar diante do que a vida trazia.


O que nenhum medicamento alcança

Então comecei a buscar.

Leituras. Terapia. Práticas integrativas. Estudei como estudante e vivi como paciente.

Não foi linear. Não foi rápido.

Mas foi real.

E em algum momento — sem que eu conseguisse apontar exatamente quando — percebi que havia mudado algo que nenhum medicamento alcança.


Não chamo isso de cura

Hoje não tenho crises.

Esporadicamente, uma ou duas vezes por ano, algo leve aparece — e já sei reconhecer o que está por trás.

Não chamo isso de cura. Sou grata pelos neurologistas, pelos exames, pelos fármacos. Sem eles, a dor era tanta que não haveria espaço para pensar com clareza — nem para buscar o que mais precisava. Chamo de um equilíbrio que foi sendo construído à medida que eu mesma fui mudando.


O posicionamento que eu ainda não sabia nomear

E foi vivendo esse processo que entendi o que quero oferecer para outras pessoas.

Não respostas prontas. Não protocolos. Não promessas de transformação rápida.

Mas companhia. Escuta. Espaço para que cada pessoa possa encontrar o seu próprio posicionamento — esse que eu ainda não sabia nomear quando estava sentada naquele consultório, mas que sabia, com toda certeza, que existia.

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