O que ouvimos antes de aprender a questionar
Cresci ouvindo que eu era magra e fraca.
Não me lembro de alguém ter dito isso para me ferir. Eram apenas palavras repetidas por pessoas que também carregavam suas próprias formas de enxergar o mundo.
Mas palavras têm um jeito curioso de se instalar dentro da gente.
Eu era uma criança viva. Gostava de correr, brincar, inventar histórias, explorar o mundo. Também era muito magrinha e, desde muito pequena, não comia carne.
Tenho uma lembrança que não sei se é memória ou reconstrução. Eu e minha mãe sentadas na cozinha. Ela me dando sopa. Na sopa havia carne moída. E eu dizendo que não gostava de carne.
Não sei se aconteceu exatamente assim.
Mas sei que cresci sem comer carne.
E também sei que, durante muitos anos, ouvi uma explicação pronta para quase tudo que eu sentia.
Você é magra porque não come carne.
Você é fraca porque não come carne.
Está cansada porque não come carne.
Se sente mal porque não come carne.
A explicação já estava pronta antes mesmo da pergunta existir.
O curioso é que meu corpo seguia fazendo o que sempre soube fazer. Corria, brincava, aprendia, experimentava, crescia.
Mas a narrativa já estava lá.
Hoje sabemos que o cérebro não espera a consciência para começar a interpretar o mundo. Ele cria modelos, previsões e caminhos de ação a partir das experiências que vivemos e das histórias que ouvimos.
Talvez por isso algumas narrativas se tornem tão difíceis de questionar. Elas passam a parecer fatos.
Durante muito tempo, eu não percebi que aquela história fazia parte da forma como eu me enxergava.
E, em algum momento, comecei a comer carne.
Pode ser que isso tenha sido bom para o meu corpo.
Pode ser que não.
Mas essa já não é a questão que mais me interessa.
O que me interessa é perceber que eu não comecei a comer carne porque descobri que era fraca.
Comecei porque já acreditava que era.
E existe uma diferença enorme entre essas duas coisas.
Hoje, observando a vida adulta, percebo que isso acontece o tempo todo.
Às vezes acreditamos que estamos lutando contra um comportamento, quando na verdade estamos lutando contra uma história.
A pessoa que não consegue emagrecer.
A que começa uma atividade física e desiste.
A que vive exausta.
A que sente que nunca é suficiente.
A que se cobra o tempo todo.
A que vive relações parecidas, mesmo desejando algo diferente.
Nem sempre falta informação.
Nem sempre falta força de vontade.
Às vezes existe uma narrativa silenciosa conduzindo escolhas que parecem conscientes, mas começaram a ser construídas muito antes.
Talvez seja por isso que algumas mudanças sejam tão difíceis.
Porque não estamos lidando apenas com hábitos.
Estamos lidando com significados.
Com experiências.
Com memórias.
Com formas de enxergar a nós mesmos que foram sendo construídas ao longo da vida.
Cuidar de si inclui olhar para a própria história.
Escutar o corpo com mais curiosidade do que julgamento.
Perceber as narrativas que herdamos.
Questionar as identidades que assumimos sem perceber.
E criar espaço para que algo novo possa nascer.
Quantas vezes fazemos isso com as crianças?
Quantas vezes uma característica observada em um momento se transforma em uma identidade?
Ela é tímida.
Ele é difícil.
Ela é distraída.
Ele é agitado.
Ela é frágil.
Talvez sem perceber estejamos oferecendo histórias que um dia poderão ser confundidas com fatos.
Muitas vezes fazemos o mesmo conosco.
Ao longo da vida, vamos colecionando definições. Algumas recebidas. Outras construídas por nós mesmos.
Até que, em algum momento, surge a possibilidade de perguntar:
Isso é realmente verdade?
Ou é apenas uma história que ouvi tantas vezes que passei a acreditar?
Crescer tem menos a ver com nos tornarmos alguém diferente.
E muito mais com reconhecer aquilo que já estava vivo em nós desde o início.