Camila Ungarato
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Travessias

A Pele do Lobo e o Espelho de Baba Iaga: O que nasce quando deixamos de ser normais?

Camila Ungarato··5 min de leitura

Me pergunto, com frequência, o quanto a gente se isola para parecer normal.

Lembro do texto do filósofo e médico Georges Canguilhem, O normal e o patológico, e me dou conta de que encontrar a mulher selvagem — essa força que a mitologia chama de Baba Iaga — é um pouco como encontrar um monstro. O oposto exato do que a sociedade carimbou como normalidade.

Todo mundo sabe que guarda em si um pouco de monstro, um pouco de loucura, um pouco de fera. Mas a gente se rejeita. Ou, pelo menos, rejeita se ver assim. Porque, olhando bem, no fundo da nossa própria floresta, sabemos que, depois que tira a pele, o lobo perde sua proteção. E aí não tem mais volta. Ou você anda pelada, ou se esconde. Fica sempre a pergunta flutuando no espelho: é melhor se esconder debaixo da pele ou andar por aí com um pelo bonito para parecer normal?

Tenho a nítida impressão de que estou vivendo as circunstâncias mais bonitas, incríveis, desafiadoras e transformadoras da minha vida. Seria a maternidade ou apenas eu escolhendo, finalmente, olhar para a Baba Iaga no espelho?

A maternidade — assim como toda grande transição na vida de uma mulher — é uma travessia que rasga as aparências. Ela é visceral, animal, indomesticável. Não cabe em manuais de etiqueta ou em feeds milimetricamente organizados. Ela nos exige o sangue, o suor, a entrega e a perda absoluta do controle. Para dar passagem ao que está tentando nascer, o "eu" antigo precisa morrer. E o social chama essa força crua de monstruosa, porque ela não se deixa colonizar.

Canguilhem nos ensina que a verdadeira saúde não é a submissão a uma média estatística ou a um comportamento padrão. Para ele, estar vivo de verdade significa ter "normatividade" — a capacidade de criar as próprias leis quando o corpo e a realidade mudam. O patológico, o doente, é justamente o organismo que perdeu a flexibilidade e só consegue sobreviver imitando uma norma rígida.

Quando tentamos caber na fôrma da "mãe ideal" ou da "mulher sob controle", estamos adoecendo nossa vitalidade para salvar as aparências. O "monstro" que o mundo enxerga em nós quando quebramos o protocolo nada mais é do que a nossa vida reivindicando o direito de estabelecer novas regras. É a saúde ruidosa e selvagem se recusando a ser domesticada.

A Baba Iaga não é uma bruxa má; ela é a guardiã do fogo selvagem, aquela que habita a periferia da civilização e se move em uma cabana com pernas de galinha, sem se prender à rigidez do chão dos homens. Olhar para ela no espelho não é abraçar a maldade, mas sim acolher a própria natureza indomada. É aceitar a nudez.

De repente, caminhando por essas linhas, me vem um desejo quase ingênuo, mas profundamente legítimo: eu queria ver todo mundo nu, andando pelas ruas. Queria ver as pessoas despidas de suas performances de normalidade, carregando suas feras e suas vulnerabilidades à mostra. Talvez assim, percebendo que somos todos feitos da mesma matéria selvagem e imperfeita, o isolamento termine. Talvez assim, a gente pare de se esconder.

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