Presença
A fresta de luz e o estômago
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Em meio a uma longa madrugada de inverno, acordei depois de alguns despertares da minha bebê de recém-completados dez meses e não voltei a dormir.
As madrugadas costumam ser momentos de reorganização psíquica por aqui. Não deveria, mas tem sido assim.
Primeiro, dediquei um tempo olhando para ela no quarto escuro e pensando na beleza e a complexidade da existência humana. Nada tão elaborado. Só a imensurável consciência divinal e perfeita que acontece num ciclo de uma respiração.
Depois, como quem se transpõe de um transe perfeito e amoroso para uma corrida de cavalos, listei mentalmente o final de semana vivido, os compromissos da semana, alguns sonhos, alguns pesadelos para ressignificar, os incômodos.
E algo que tem me incomodado são o que vou chamar aqui de as novas relações humanas. Ou, melhor dizendo: as novas relações não humanas.
Há muito tempo já normalizamos alterar nossa aparência com filtros nas redes sociais, trocar directs rápidos, áudios de segundos no WhatsApp e chamar isso de relacionamento, de interação. É estranho, mas também é prático; preserva o distanciamento quase certo, com uma dose homeopática de carinho e intimidade.
Nada disso é assunto novo. Mas tem me incomodado — bastante, diga-se de passagem — a naturalidade, cada vez mais crescente, com a qual a comunicação tem sido intermediada pelo virtual, pensada muito pouco pelo humano, escrita por IA e sentida... sentida por ninguém.
Harari, em 2023, já falou sobre a capacidade das inteligências artificiais de dominar a linguagem e "hackear o sistema operacional da cultura humana". E eu, no quarto escuro, olhando uma pequena fresta de luz entrar pela janela, me perguntei: quem sou eu quando a IA guia meus pensamentos?
Afinal, ela guia ou não? Eu estou mesmo no controle? Tive medo de, assim como tantos, me perder privilegiando a inteligência pura em detrimento da consciência. Me preocupei com a conveniência se sobrepondo à profundidade. Me entristeci com a ilusão da conexão mediada pela máquina ou, por vezes, assistida por ela — a TV, o celular, a Alexa, o computador, sempre ali, do lado, ouvindo tudo, capturando a atenção.
Ali. Bem ali. Naquelas horas roubadas da madrugada, sentindo o incômodo psíquico e me questionando, percebendo o corpo responder com certa ardência no estômago, um enjoo, uma tensão que quase torce os órgãos internamente: percebi, antes de o sol nascer, que ainda estou aqui.
Eu sinto, vejo. Tenho habilidades minhas, humanas e valiosas, que me permitem olhar para o lado, desejar abraçar um pequeno ser que se contorce sonolento, que um dia nasceu de mim, e esboçar um pequeno sorriso percebendo que algoritmo nenhum criaria essa experiência tão encarnada.